A memória tem sempre essa tendência otimista de filtrar as lembranças más para deixar só o verde, o vivo. Antigamente, sempre era melhor, ainda que não fosse. Talvez porque já esteja, lá, tudo solucionado e a gente possa se ver, no tempo, como quem vê uma personagem num livro ou filme: aconteça o que acontecer, há um fim definido, pré de-ter-mi-na-do (assim, separado mesmo, que é pra ler devagarinho). Essa espécie de improvisação do agora, do que está sendo moldado, causa muito mais angústia. Não temos, como no samba, a menor idéia de como será o amanhã.
Apesar de que, alguém maior lááááá em cima pensou nisso. Se a gente soubesse ... haha. Dá vontade de rir. Seríamos TÃO tolos querendo improvisar coisas, forjar olhares e encontros como se soubéssemos de tudo. E mesmo quando julgamos saber, não sabemos de NADA. Já pensou se a gente soubesse quem é o amor da vida, ou como estaríamos com 35, 40 anos? A gente não mexeria uma palha pra acontecer coisa alguma. Somos preguiçosos. Eu sou. Mas vou atrás me espreguiçando, abrindo a boca como quem acabou de acordar e se achando lindo (sim, porque alguém ja me disse que eu fico lindo quando acordo - e eu acreditei).
Ontem um amigo ligou reclamando de umas coisas (da vida/do ócio/do trabalho/da namorada/do cara da academia que o paquera/da mãe que o quer médico logo) ... A gente guarda mil coisas no bolso nessas horas pra acudir. Ouvir que seja. Ouvir gente que SÓ reclama é bom. Faz um bem danado saber que problema só muda de endereço e de roupa as vezes. E até usa a mesma que você.
Chamei o reclamão pra deitar numa grama. É ... deitar e olhar pra cima. Não se importe muito com a roupa porque certamente vai sujar um pouco. Mas só um pouco. Ele começou a falar. Nessa hora não dá pra falar. É calar a boca e olhar pra cima. Ele fez isso quando eu mandei.
- O que eu faço?
- Continua olhando pra cima e não faz nada. Só olha e cala a boca.
- Hum ... tá.
- Se quiser fechar os olhos, faça isso mas não me conte e tipo, respire melhor e vai pensando aí nas tuas coisas que eu fico aqui pensando nas minhas. Quando estiver pronto a gente vai embora, sem tocar nos assuntos novamente.
Interessante saber que pra quem vai cuidar de vidas, está em vulcões com a sua. Ficou quase uma hora lá sozinho. Sim, porque em três minutos eu o deixei sozinho e voltei pro carro e inerte, nem percebeu. Era tudo dele alí. Depois me agradeceu, sorriu então.
As pessoas suportam tudo, as pessoas às vezes procuram exatamente o que será capaz de doer ainda mais fundo, o verso justo, a música perfeita, o filme exato, punhaladas revirando um talho quase fechado, cada palavra, cada acorde, cada cena, o pior namorado o corpo e sorriso até a dor esgotar-se autofágica, consumida em si mesma, transformada em outra coisa que não saberia dizer qual era.
E, meus queridos ... a gente nunca sabe. Dê um sorriso aí (tem que ser agora).
Um comentário:
Noss, cara eu sou homem brow mas te paqueraria ... hahaha na boa
Vai ser assim na pqp
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